quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Eu sabia... Sempre soube.


.... Que os fantasmas eram feitos de claras de ovos e açúcar. Que eram farófias que se se soprasse, se desfariam em mil pedaços de espuma polvilhada de canela e açúcar. Mas, de longe, pareciam fantasmas de verdade. Magoavam-me, doíam-me de verdade. O seu vislumbre enlouquecia-me. Estavam tão perto que me cheirava ao enxofre dos infernos. Sentia-me resvalar. Para lá, para o inferno. Sentia as chamas chamuscarem-me e começarem a enrodilhar-me a pele. Ficava nervosa, muito nervosa e com muito medo. Será desta que vai tudo por água a baixo? Se for assim, como vai ficar a minha vida, o que me vai acontecer? Será que tenho forças para suportar? 



Senti-me tantas vezes no limite das forças. Senti tantas vezes que não aguentava e que queria fugir, sem ter para onde e com medo de fazer aquilo que não queria fazer, mas que sei que não vou fazer, mas que tenho medo de fazer porque não quero fazer. Eu não quero ir ao meu limite nunca mais. Sei que só terei de fazer se passar do limite e do limite não passarei jamais.  Garantem-mo. Mas tenho medo, que já me garantiram outras coisas que não cumpriram. Nunca coisas importantes. A verdade é que está tudo diferente. As energias, a forma como fluem dentro de mim, como fazem o que têm a fazer. É diferente. Falam mais comigo, são mais suaves, já não fazem certas coisas. Só me assustam e agora assustam-me como nunca me assustaram, porque eu agora deixo. Porque eu agora já não confio. Antigamente assustava-me, mas ainda confiava. Agora já não confio e assusto-me muito mais. Espero tudo, vejo a minha vida desmoronar em frente aos meus olhos, ainda que em sonhos. 



E mesmo quando confio que a desgraça não é desgraça e que eu posso perfeitamente revertê-la e que ela se pode perfeitamente reverter a ela mesma ou, simplesmente, quando sei que ela simplesmente não é aquilo que parece, sinto que não aguento só o facto de ela ali estar. A desgraça, tendo-me batido à porta, a conviver comigo, sentada à minha mesa, deitada na cama, comigo para todo o lado. Calculo que não seja a verdadeira desgraça, mas cheira a ela, parece-se com ela, mete-me nervos, desgasta-me, cansa-me. 



Ela às vezes vem. Desgraça-me mesmo, mas de coisas que posso recuperar, de coisas não essenciais, de coisas que posso consertar. Coisas chatas, desgastantes, que me enlouquecem quando vêm todas juntas. Como as visitas não desejadas. Mas quando tudo passa, é como se o fumo se desvanecesse na atmosfera, deixando-nos a perguntar-nos se alguma vez houve fumo. Se bem que hoje já não. Os fantasmas e os infernos e os fumos, mesmo quando são só para assustar, deixa-me marcas. Fazem-me cabelos brancos, deixam-me olheiras e papos nos olhos, deixam-me amarga e desconfiada. Mesmo quando percebo que afinal não era nada. É que era. Foi, naquele momento foi e ficaram as cicatrizes. Vivi aquilo e ainda que se tenha curado, nada poderá mudar o facto de eu ter estado em tal posição ou situação. 


Não quero mais desgraças. Quero coisas, muitas coisas, mais do que as que tenho, mas que venham devagar, sem desgraças. E as desgraças que se estabeleceram suavemente, destruindo as forças de que necessito para o quotidiano, essas sim que se desvaneçam depressa, pois já têm condições para o fazer.  



sexta-feira, 26 de agosto de 2016

E agora que cheguei...



Todos os fantasmas to passado estão de volta. Aqueles que um dia vislumbrei as armas para conseguir aniquilar, mas não cheguei a aniquilar, não porque não tenha conseguido, não porque as armas não tenham chegado. Simplesmente, não cheguei a lutar, não cheguei a usar qualquer arma, ainda que tenha pensado tê-lo feito. Pensei que o simples vislumbre de tais armas havia afugentado para sempre tais fantasmas. Como sou inocente. Pensei que o simples agitar de coisas que me pareciam tão poderosas tivesse sido o suficiente. Não foi. Deveria ter percebido que tudo apenas se estava a reorganizar. O fim de uma era havia chegado e sim, aí lutei, nesses tempos idos, lutei muito e consegui, consegui muito. Não consegui tudo, porém. Aquela magia que se deu, não era verdadeira magia, que a verdadeira magia não existe. Existe, sim, o calcorrear dos caminhos mais difíceis  que a vida tem para nos oferecer e, no fim, saborear o milagre, não nos surgindo como milagre algum, apenas a simples consequência dos nossos actos, das nossas lutas. Não posso negar um certo saudosismo que cheguei a sentir em relação ao passado... Tudo se havia desvanecido tão de repente, que não tive tempo de me despedir. Que não tive tempo de arrumar e tanto não arrumei, que a desarrumação voltou para me cair em cima da cabeça. 



Foi tudo tão rápido que, ainda que me sentisse bem assim, não sabia bem quem eu era, já que quem eu era havia desaparecido. Para dar lugar a algo mais suave, mais leve, mais tranquilo, mais cheio de cores luminosas e agradáveis. Algo mais simples e airoso. E procurei por mim. Achei-me, sim, mas talvez apenas parte de mim. Apenas a parte leve e suave. Da outra não havia sinais, embora eu suspeitasse que se encontrava apenas temporariamente enterrada debaixo dos escombros de um terremoto de bem estar e felicidade. Só para me permitir respirar por um tempo. Ou o esquecimento da tralha e da desarrumação. Ainda bem que procurei por mim, ainda bem que me achei. Achei alguém que eu ainda não conhecia até aí. Ainda bem que nesses tempos de alívio as nuvens se dissiparam ao ponto de permitir ver alguém que existia, mas que a tempestade constante não me permitia vislumbrar, obrigando-me a construir uma imagem incorrecta de mim mesma.



Muito se resolveu nesses tempos, mas tanto ainda ficou por resolver. Quiseram mostrar-me como se vive sem tais encargos, como é leve a vida sem tais carregos. O peso aliviou para que a vontade de ir ao encontro da desgraça se fizesse novamente sentir. Sem que eu soubesse que essa vontade que parecia própria, não era se não uma imposição. Que a vontade mais determinada não é se não o destino forçando-nos, por vezes, a encarar aquilo de que, de outro modo, fugiríamos a sete pés. 

Hoje tudo se desmorona novamente e procurar por mim mesma já não é tão fácil, porque não depende agora só de mim. Depende de mais alguém, das suas escolhas, da sua força ou da sua fraqueza. Creio ser imprevisível saber onde vamos chegar, mas onde quer que cheguemos, chegaremos em conjunto. Por vezes encarei como assustadora a possibilidade de se perder a identidade perto de outra pessoa, quando as almas se fundem de tal maneira que se esquecem de ser quem são, deixam sequer de necessitar disso. Quando nos fazemos totalmente dependentes de outrém, quando a nossa felicidade já não está mais nas nossas mãos. Insensatez, diria de tudo isto o meu eu leve, suave, airoso e profundamente sensato em tantas situações semelhantes a esta que encontrou pelo caminho. O meu eu leve e airoso que queria apenas simplificar a vida, vivê-la em pleno com tudo o que ela tinha de bom a oferecer, mas foi forçado por um eu cheio de fantasmas a entrar em contradição com aquilo que seria desejável e acertado. Ainda que, e apesar de tudo, tal eu nunca tivesse deixado de suspeitar tratar-se de uma insensatez apenas para os comuns mortais, uma insensatez com a qual suspeitava haver de vir a ser confrontado e até obrigado a participar.



Já tendo chegado, continuo agora a caminhar, já não sozinha, mas sentido-me profundamente só em muitos momentos. Que a minha companhia ainda só me acompanha em parte, mas as promessas de que isso, em breve, se corrija, já se fazem ouvir e sentir, ainda que, face a tantos fantasmas que afinal ainda estão vivos, a minha alma não queira estar muito crente em qualquer previsão positiva para os próximos tempos, por simples medo de se decepcionar, por simples cansaço em crer, por simples descrença, não passando toda essa descrença e todo esse medo da decepção de mais e mais fantasmas do passado...

No entanto, nasci para lutar e assim continuo, ainda que mais lentamente, ainda que as forças não me cheguem para me levantar, ainda que tenha de aguardar que as forças retornem a mim. Ainda que não seja esse o objectivo final da minha jornada, ainda que seja suposto que eu me dissolva em alguém, terei, com toda a certeza, que fazer uso de uma das minhas mais poderosas armas, uma que levei até algum tempo a adquirir, e eu diria mesmo que poderei ter de a usar por mais do que uma vez. Para me defender e resta saber se conseguirei mesmo atacar com ela. Como eu gostaria de atacar com ela; como eu gostaria de sair da defesa e passar ao ataque. Preciso disso, já me que inundam os sentimentos de impotência. E aquilo que preciso atacar também precisa do meu ataque, precisa desesperadamente do meu ataque, mas se eu nem levantar-me consigo, se eu mal me consigo defender.



Esta arma a que me refiro é uma que tão bem aprendi a manejar no passado. Que tão exímia fui nessa aprendizagem e que tanta força me trouxe. Que tanto me permitiu aprender. Quero defender-me e atacar usando-a, usando a capacidade que, apesar de tudo, ainda sei que tenho de me fazer feliz a mim mesma, ainda que dependa mais da resposta de outrém do que nunca em tempos da minha vida. Tenho de conseguir ir ao encontro de mim. Tenho de conseguir recordar-me de mim, reconstruir-me. Há tanto tempo que não sei de mim, aquela velha mim, será que ainda me consigo encontrar? Não tenho ilusões de conseguir encontrar intacta a rapariga leve, suave e airosa. Mas pelo menos, parte dela, os seus vapores, o que dela sobrou, depois deste encontro com o passado. Encontro que evaporou essa luz que eu emanava, pelo menos em parte. Sim, em parte, que ainda acredito que, tal como no passado deixei fantasmas soterrados, também desta vez o terremoto deverá ter soterrado muita alegria, muita felicidade e muita luz a que ainda pretendo retornar. Tudo isto para que eu pratique a mui nobre arte de procurar por tudo de novo. Para lhe dar estrutura, como alguém me mencionou por estes dias.


Estou a pouco tempo de regressar ao campo de batalha. Um campo que já começa a estar impregnado da minha energia, da energia que pertence ao meu verdadeiro eu, não a partes com quem tenho tido encontros ao longo da vida. Creio que irei em busca de mim mesma e acabarei a encontrar uma nova eu, alguém que integre todos estes bocados e que assim se constitua como alguém mais perfeito e mais coerente, mais sábio e mais forte. Que os anjos ou alguém me ajude neste caminho que me parece o mais confuso de sempre. Apenas sei a direcção inicial que devo tomar, nada mais. Sei também que essa chave que agora se me apresenta não abrirá todas as portas e que baterei com o nariz na madeira vezes sem conta, já que as portas que estão por abrir devem sê-lo com chaves que ainda desconheço, sendo essas as portas, precisamente, que encerram as verdades a meu respeito que mais preciso conhecer, que mais falta me fazem, que mais liberdade, felicidade e até poder me prometem. Do que posso encontrar pelo caminho, apenas tenho uma leve suspeita, mas isso revela-se tão insuficiente quando dou por mim cheia de medo, sendo o meu maior medo o de não conseguir vencer tantos e tão enraizados fantasmas que se sobrepõem a cada dia, esgotando-me. Tenho medo de não ter força, como tantas vezes não tive no passado. Tenho medo de voltar a cair, de voltar a ser obrigada a desistir, como sucedeu tantas e tantas vezes no passado. Tenho medo que me esgotem as forças de propósito e que me queiram ver caída, no chão, de novo. Desistindo e decepcionando todos aqueles que levei a que acreditassem em mim, na minha capacidade de vencer e de levar grandes embarcações, sozinha, a bom porto...

sábado, 23 de julho de 2016

E agora que cheguei...



... ainda às vezes dou por mim perdida, mas não é tanto. Agora que cheguei percebo porque levei tanto tempo a cá chegar. É que tinha de estar preparada, é que é um duelo de titãs, esta batalha que me esperava, bem mais difícil do que alguma vez supus e que me força a ir ao limite. Que andava farta de marcar passo, mas agora continuo, mais ou menos, se bem que a briga agora já a vejo bem e percebo melhor. Pedi que a vida puxasse por mim, e ela nunca se fica a estes pedidos. Devemos ter mesmo muito cuidado com aquilo que desejamos pois torna-se sempre, sempre verdade, mais tarde ou mais cedo, questão de tempo apenas. E se pedimos e pedimos e não se concretiza, por alguma coisa há-de ser. Normalmente é porque a não conseguimos suportar, é porque é por demais pesada para as nossas costas fracas e aleijadas de outras coisas, ainda que menos pesadas, mas cansadas. Mas não, não deve ser peso a mais para eu carregar. Pelo menos assim parece não ser. Que quando a carga começa a ficar pesada de mais e eu grito, vem sempre algum alívio acudir. Continuo cansada, mas ainda não exausta, já que frequentes injecções de energia me são gentilmente entregues, em meu socorro. Agora já percebo, percebo muitas coisas que antes não percebia. É bom por isso, o ponto de chegada... Fica tudo tão mais claro. O círculo em que me movia mexeu-se, foi para cima, desvendando, afinal, uma espiral. Uma espiral ascendente, e eu passei de nível. Mas quero passar de muito mais níveis ainda, que começo a evolução agora apenas. Quero ficar mais forte e conhecer outras formas de olhar para o mundo. Quero crescer ainda muito.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Lost again... always lost...



... desta vez perdida em campos já conhecidos. Com os estrondos dos canhões e das armas soando lá muito ao fundo, lá muito longe, como pano de fundo para os meus dias vividos em surdina, num silêncio que não pedi. Eu que sempre precisei do silêncio para respirar, agora não o quero, não agora. Porque é que tudo se calou. Porque é que eu não ouço nada e não consigo mexer-me. Para onde estou a ir exactamente. Mas desta vez tenho pistas. De outras vezes tinha pistas, mas eram as pistas erradas, agora sei que tenho as pistas certas. Das outras vezes agarrava-me às pistas erradas com unhas e dentes, com medo que elas não fossem as pistas certas. Quando as pistas são certas, nunca é assim, nunca nos agarramos com unhas e dentes, apenas com unhas. Acho que sei para onde estou a ir, mas não tenho a certeza. Há coisas que não encaixam, há coisas que não quero assim. Pensei que nunca mais me sentiria asfixiada, porque nunca mais me senti asfixiada, até me esqueci de como era, até me esqueci de que um dia foi assim que me senti, asfixiada. Não me sinto asfixiada, mas quase me senti, por um instante. Os piores dos medos gostam de voltar de vez em quando como fantasmas ondulantes e sussurrantes, para uma última despedida, para garantirem que não me esqueço que um dia foi a mim que me pertenceram, foi a mim que me assombraram. É bom saber e perceber que voltam e vão embora de novo; é bom tomar consciência de que já não querem ficar, então vêm e vão, vão depressa, ao fim de uns meses, ao fim de semanas, quem sabe, no futuro, de dias. Sinto vontade de empurrar novamente a minha vida. Durante algum tempo, ela parecia deslizar sozinha, era quase perfeita e não sendo ela perfeita, era a minha boa vontade e postura que era perfeita, éramos perfeitas uma para a outra, encaixávamos na perfeição. A curva era ascendente, tudo melhorava, tudo ia para melhor. Pensei que não houvesse mais curvas na estrada, mas havia, havia uma que estava escondida, uma da qual me senti aproximar com toda a velocidade, mas achei que não fazia mal. Sabia que ia ser difícil, que corria o risco de me despistar, mas sentia também que nada podia fazer, e nada fiz. Ainda tentei fazer, mas do que tentei, pouco ou nada consegui. Era inevitável a colisão, o despiste, o acidente. Acidentei-me, despistei-me, magoou, doeu. E agora a voz fala em tom firme e vívido, sem hesitações, sem ecos ou coisas afins. Estou perdida, mas não estou perdida, ou acho que não estou. É tudo tão absolutamente claro e, qo mesmo tempo, tudo tão absolutamente louco e improvável. Deveria ser provável para acontecer, foi isso que aprendi, que apenas as coisas prováveis aconteciam. Mas não foi assim, muita coisa improvável aconteceu. Queria que muitas coisas improváveis e interessantes continuassem a acontecer como até aqui, queria que a minha vida não morresse, que a minha vida me deixasse perceber o que quer de mim. Eu já percebi, mas é como quem lê a legislação; nunca sabe ao certo como é que aquilo funciona na prática. Estou à espera de mais informações e orientações...




terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não era mentira.



Era verdade disfarçada de mentira. E todas as mentiras são muito mais verdade do que parecem. Se não não vingavam como mentiras e logo ruiriam enquanto tal. Era verdade, afinal, embora apenas parte da verdade, por isso parecia mentira, mas não era. Era parte da verdade. Que já não me mentem, que já estou crescida, já a posso conhecer sem me assustar com a sua aparente cara feia. Não devemos ir pelas aparências, lá diz a sabedoria popular; não se deve julgar as almas pelas caras; a verdade traz em si a beleza também, ainda que tantas vezes, ao princípio, faça cara feia. Que no fim de tudo há Amor apenas, só o Amor se transforma em verdade, só a verdade se transforma em Amor. Não há que temer a verdade. Há apenas que compreendê-la; a dor vem apenas de não compreender a verdade, dói porque não há verdade, é porque ainda há mentira. Não preciso de mentira, só de verdade. Sei que não consigo abarcar toda a verdade, ou Deus seria eu, não quero ser Deus, é muita responsabilidade. É muito o crescimento para se lá chegar, cansamo-nos muito, divertimo-nos pouco. Não quero ser Deus, mas quero abarcar tanta verdade quanto possível. Quero que me digam, quero compreender. Quero que a alguma verdade que estiver ao meu alcance seja suficientemente coerente e completa para eu poder perceber. Como uma porção de um puzzle em que, não se percebendo todo o desenho, se percebe, pelo menos, aquela parte. Não quero a parte do puzzle em que a figura está cortada ao meio e nada se entende. É só isso. Ajuste-se a imagem, rodem-se os botões, desloque-se o cenário. Afinem-se as energias, optimize-se o processo. É um direito e um dever que tenho. No fim tudo encaixa e eu quero saber como encaixa. Quero reconhecer em mim o pedaço do Universo inteiro que eu sou. Quero saber como o todo cabe na parte.

Não era mentira, era apenas parte da verdade, era a verdade a descobrir-se, todos os dias um pouco. Falham as comunicações entre mim e o Universo, vêm as imagens aos solavancos, aos soluços, um pedaço da imagem a cada dia... e a cada dia a minha mente, sem autorização, especula sobre o resto que falta saber, e cada dia a minha mente descobre o quão falha é essa especulação. Que bom, que alívio, sente-se a leveza da ausência de responsabilidade, mas o peso da dor está sempre presente. Que as revelações têm um preço, que é a dor. Mas é uma dor que só dói por dentro, que faz mal à saúde de dentro, mas que eu aprendi a manejar. Aprendi a suavizar, a emoliar, a aplacar. A desinfectar as feridas provocadas pelos cacos dentro do peito. Que os sinto cá, os vidros, a espetarem-se nas paredes internas de mim. Mas ponho o creme e, no fim, juntando os cacos recriarei Gaudi numa Obra de Arte só minha, feita por mim. 

Era verdade e era bela, porque a verdade deve vir acompanhada da plenitude de sentir que tudo finalmente faz sentido, ainda que possa ser um sentido; mas há tantos sentidos. Há o perverso e todos os outros, que o perverso só se vê aqui à luz da Terra, todos os outros precisam de lanterna que nos guie na penumbra do subsolo.

Que se cumpra a verdade, já que é verdade. Que cada sentimento, agora que estão afinados, encontre o seu lugar na pintura do real, real daqueles que são materiais e se fixam na memória e nos fazem crescer e transformar em pessoas diferentes. 

Que se cumpra a verdade e que se revele ainda mais verdade do que se poderia pensar. Que me surpreenda na maneira de encaixar com perfeição cada um dos meus sentires numa realidade cheia de sentido e propósitos visíveis e perceptíveis. E assim, nenhuma armadura fará falta...

sábado, 31 de agosto de 2013

Verdade e Mentira



Perco-me com frequência, mas há momentos em que me perco mais do que em outros. Perdi-me agora mais que nunca. Vozes que me falam sem saber o que dizem e me enviam em direcções que não me pertencem... como querem que volte a confiar em vós, como querem que saiba se é a verdade que me dizem? Revolto-me e elas calam-se em retaliação. De que importa que estejam caladas; se falassem, que hipóteses teria eu de saber se o que dizem não passa de mais uma miragem? Miragens que não desejo, mas ainda assim aceito, por julgar verdadeiras, por julgar serem o melhor para todos. E ainda assim, não passam de miragens. Como queria ser digna da verdade. Conheço todos os seus perigos, sei que vista ao longe parece muito mais insuportável do que realmente é; adaptamo-nos a tanta coisa que inicialmente consideraríamos insuportável. Talvez me queiram poupar; as vozes talvez me tentem poupar apenas de dores desnecessárias. Mas acho que não.

Tanto mudou. Tudo está tão diferente. Diferente por dentro, que é onde vivem as grandes diferenças, as que quando se manifestam por fora têm já raízes. Por dentro sei que não continuará a ser assim. Gritamos que queremos a verdade, mas não estamos prontos para a ouvir. Não adianta gritar, então; sem o espírito preparado, seremos alvo de mentiras de toda a sorte. Estou cada vez mais pronta para ouvir a verdade, no entanto. Tanto, que é a verdade que ouço, foi a verdade que ouvi por tanto tempo, que me desabituei do resto. Questiono-me qual será a razão de um longo período de verdades desembocar sempre numa sucessão de mentiras. Sei que as mentiras, afinal, não são assim coisas tão graves, que por vezes nos levam por caminhos mais interessantes e ricos do que nos levaria a verdade. Enganos são mentiras da mente que nos quer levar a trilhar o caminho mais longo, pois a alma conhece que o caminho mais longo nos deixa mais fortes. Sabendo a verdade, teria ido direita ao ponto de chegada, sem me perder e descobrir reentrâncias na linha de sucessão das coisas. Que a vida não está para minimalismos, a vida é uma peça de crochet intrincado, de bilros. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

E Depois da Guerra



Depois da guerra, descansa o guerreiro. Será mesmo assim? Que vida a minha e que sina a minha, que quando parece que vem descanso, não é descanso que se vislumbra na verdade, mas sim a oportunidade de mais uma batalha, ainda que, por vezes, por algo com que não ousaria sonhar. E então certamente vale a pena lutar, que o Universo conhece-me, não nego uma luta por bons motivos. Por vezes, no entanto, resta a dúvida de que armas escolher. A arma do amor tem de estar sempre presente, mas é tão difícil distingui-la no meio de tudo o resto... como se se transmutasse no seu oposto a cada instante e eu tivesse de estar constantemente a procurá-la e a questionar-me onde anda ela, a arma que é o amor. Que o amor assume aspectos tão distintos que parece ódio, por vezes. Fingir odiar quando é amar que se pretende - será a arma eficaz? Na verdade, sou pouco experiente nisto de lutar com as novas armas que encontrei perdidas no caminho, há anos atrás... como se sempre lá tivessem estado, como se eu sempre as tivesse podido utilizar, mas andasse tão distraída que não reparasse na sua existência. Não sei se é eficaz, nem essa nem nenhuma outra das armas, menos importantes certamente, nesta luta que é a de viver intensamente, aproveitando cada momento, mas também cada oportunidade, cada sinal. Irei eu vencer mais esta batalha? Que me vêm à mente tantas e tantas vezes as imagens das batalhas que perdi, acompanhadas da voz que diz que não perdi, apenas ainda não percebi como ganhei; que neste mundo nada se perde. Poderia alegar cansaço, mas não. As possibilidades de um novo caminho que parece abrir-se fazem-me revigorar as forças e redobrar a vontade de lutar... apenas me sinto perdida sem saber ao certo como lá chegar... vi por momentos anteriores como se luta e se chega onde se quer chegar através dessa mesma luta; uma luta que poderá jamais ferir alguém, uma luta por ensinar, por evoluir e melhorar, uma luta por quebrar as amarras dos bloqueios, dos medos; uma luta pela liberdade de não se ser assim tão livre, mas não sê-lo da forma que se escolheu. E agora; é este caminho mesmo caminho, ou apenas mera ilusão, miragem absoluta como tantas vezes sucedeu, em momentos de inversão de pensamentos? Seria mesmo a miragem de se estar a mudar de prisma de olhar? Ou será este mundo um eterno engano e tudo o que possamos considerar verdadeiro estar condenado a revelar-se uma fraude? No limite, não tenho dúvidas disso, mas apenas luto por viver uma ilusão durante algum tempo... chega para mim, essa ilusão provocada pela ilusão que é o tempo, que sei que à verdade pura apenas se chega de ilusão em ilusão... Terei eu forças já e armas já para conquistar o que me foi dado a vislumbrar? Merecerei eu conseguir lá chegar, ou, pelo menos, poderei eu fazer por merecer, estará realmente ao meu alcance? ... É no momento em que teço estas questões que o cansaço me atinge... mas sei que o descanso não me é permitido, sei que a escolha não me é dada e que terei de continuar a caminhar em frente, de armas suaves em punho e esperar que me guiem as vozes da sabedoria dada pelo que já senti dentro de mim... pelo que já ouvi dentro de mim... esperando que as vozes que soam mencionem o presente e o futuro próximo, e não se refiram apenas a um futuro tão longínquo que ainda não consigo vislumbrar...

sábado, 16 de junho de 2012

E eis que a Guerra vem


Pois se pedires, serás atendida. Foi pela guerra que pedi, foi a guerra que consegui. Mas a guerra que eu escolhi, oh se escolhi. E não é que seja guerra; só é guerra nas minhas entranhas em reviravolta, no meu peito dorido de dores que nem eu mesma sei explicar, que nem eu mesma sei de onde vêm.

E se num momento olho ao redor vendo acalmia, mais a noção de onde estou, no momento seguinte tudo se vira do avesso e eu perco-me. As vozes outrora seguras, que ainda que não me deixassem segura, falavam com segurança do presente. No presente eu estava segura; a acalmia poderia sim prenunciar guerra futura. E era isso mesmo que prenunciava. Um nó na garganta, é o que eu tenho agora; se um ponto de interrogação paira sempre sob os céus de paisagens futuras, agora a incógnita agudiza-se. Nada que premonições não me houvessem avisado já... mas e as vezes que as premonições apenas desnorteiam nada mais? Não sei se é de mais engano que se trata, não sei. 

Estou com medo, ah pois estou. Olho para o que construí e gosto do que fiz. Tenho medo de ter de derrubar coisas boas que construí, coisas boas que me fazem falta e das quais não quero abrir mão. Estou com medo, ah se estou. E nó na garganta, outro no estômago. Nem eu mesma sei explicar bem porquê.

sábado, 12 de maio de 2012

And now, what?


I'm happy now.

Se estás triste é porque estás triste, se estás contente é porque estás contente. Oh alma sem parança, descanso, sossego, interregno sequer. Mas que foi agora?

Olho ao redor. Está tudo tão quieto, está tudo tão calado. Tudo tão calmo. Fico com medo. Para mim nunca foi assim. Para mim não é assim que é para ser. Deus desenhou-me guerreira de alma, que o corpo é frágil. Foi lá que ele me pôs a força toda; não força para enfrentar problemas; talvez a tenha, mas não me enche as medidas essa força. A força com que vim de origem é força daquela que foi feita para empurrar, para me empurrar para chegar mais além. Cumprido um patamar, fui concebida para almejar o seguinte. Tenho por sina não conseguir sossegar ou tranquilizar-me, algo me perturba a alma constantemente,  quando não é isto é aquilo, quando não vem naturalmente, eu mesma invento. Oh, tormento, doce tormento, que eu gosto que seja assim. Pois não vim ao mundo para parar; avançar é só como sei estar, ainda que avance no sentido do retrocesso, pois todo o retrocesso contém em si a semente do avanço. 

Quando tudo se pacifica, pergunto-me - e agora? Onde está a guerra que se segue? Que faço eu com o escudo e a espada dos quais não entendo desligamento do meu próprio ser. Tenho de lutar, para avançar, ou algo me pode atropelar. Se parar fico no meio do caminho e posso correr riscos. Sinto-me mais segura em guerra que em paz. Mas não é guerra qualquer. Para eu lutar a guerra terá de ser aquela que eu escolher.

Procuro escolher. Será que me dão a escolher? Será isso que significa a acalmia? Talvez me estejam a dar a escolher. Que vontade de não escolher, de ficar sossegada; mas que fazer depois com o escudo mais a espada que trago acoplada? Não foi sossegada que nasci para estar. 

Procuro pela guerra que quero lutar. Olho ao redor e luzem pequenas luzes de almas em desespero necessitando salvamento... que posso eu fazer? Alguma coisa há-de ser. Alguma coisa tem de ser pois foi assim que nasci, foi isso que nasci para fazer. 

Guerra, que te escolho, salva-me tu da desgraça, que a verdadeira desgraça é a de se lutar por causa que não a nossa, que a causa alheia que é por nós escolhida, é nossa também.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Where do In find myself right now?



Here I am. Again. Asking myself where do I find myself now. Again. It's good to ask yourself that, once in a while.

I'm in a different place. Everytime I ask myself, I find myself in a different place. And that's something I find good. A good sign. It means I'm still growing. I feel like I'm growing more now than I used to when I was a young girl. It means I'm young, at my heart, I remain young, a teenager, a child. It's good to ask myself that question and notice that I have the answer. I love to hear that answer.


Já mudei de sítio, outra vez. Eu ando sempre a mudar de sítio; mudo mais de sítio psicológico, que de sítio físico. Mas não me canso. Como se, de quantos em quantos meses, eu acordasse uma pessoa diferente. É bom, eu gosto de mudar assim, sobretudo porque sinto mudar para melhor. Há muita coisa que consigo ganhar e conquistar. Há alguma que perco; quando olho para trás e vejo que perdi qualidades assusto-me. Corro para trás, vou lá buscar e volto num ápice para o sítio onde estava antes, na tentativa de que ninguém se aperceba da perda. De que eu mesma não me aperceba da perda.
Então, se mudei de sítio, onde estou? Estou a caminho. E agora, vejo o caminho. Há coisas que eu sei que, ao longe parecem umas coisas, mas quando me aproximar se revelarão algo diferentes. Não faz mal, a vista aprimora-se a cada dia, que a vista precisa de treino como tudo mais. É preciso insistir a olhar com olhos de ver. Ao início a vista trai-nos, não está habituada a ver como deve ser. Mas os olhos já não me traem. As vozes guiam-me ao invés de me desorientar. Este dia iria chegar, sempre soube, mas não soube confiar, nem acreditar. Quando estamos no meio da tempestade, por vezes temos dificuldade em acreditar que a bonança se lhe segue. E a tempestade poderá voltar até; mas a que a enfrentar é outra agora, é diferente da que era antes, tem outras armas, outras ferramentas. Já não se atormenta da mesma maneira, nem se assusta com as coisas de antigamente. Assustam agora outras coisas, que um dia, por sua vez, deixarão de assustar elas também. É sempre assim; umas levam mais tempo, outras menos, mas é sempre assim.
Estou a caminho de mim; andei perdida por atalhos em que me meti, cuidei que nem todos os caminhos levariam a Roma, mas levavam. Os atalhos; meti-me em trabalhos, mas lá cheguei. Os quilómetros que poupei valeram-me golpes e arranhões, mas houve caminhos que assim aprendi que não teria aprendido de outra forma. Não adianta pensar que poderia ter sido diferente; poderia, é certo, mas seria outra a que estaria aqui a escrever e não esta que aqui se encontra, e eu gosto desta, não a trocava por outras mais asseada e menos arranhada.
Quando começamos a chegar, os contornos tornam-se mais claros. As perguntas que nos fizemos pelo caminho encontram resposta. Os vislumbres longínquos encontram contornos cada vez mais perfeitos, definidos, concretos. O sonho transmuta-se em realidade. Eu sabia que assim seria. Ainda assim, para tudo o que vi, tenho a sensação de pouco me haver ainda aproximado. Mas sei que me aproximo. A cada passo tenho a confirmação. Que, ao longe, se vislumbrava uma grande montanha, cheia de caminhos e grutas e bosques e veredas. Caí num vale e deixei de ver a montanha; duvidei da sua existência, cuidei haver-me confundido. Mas não. Em momento algum me confundi. Tudo o que vi estava lá; recomecei a vistrumbrar a montanha mal consegui recuperar do vale.