domingo, 1 de janeiro de 2012

Luzes


Chego agora cada vez mais, onde cuidei não mais conseguir chegar. Não quero a morada da chegada igual à que conheci da outra vez que lá cheguei. Quero umas coisas, outras não as quero para nada. Quero aquela luz, aquela pela qual suspirei tantas vezes... aquela que tantas vezes me questionei para onde havia ido... e que agora se insinua, que agora parece sussurrar que veio para ficar. Não consigo, no entanto, evitar questionar: será? Tantos que foram os altos e os baixos, caminho percorrido por montanhas e por vales desconexos, sem qualquer sentido que lhe conseguisse perceber... já não estou cansada. Tenho mais e mais ganas de viver e se num dia parece sombria a vida, a simples constatação da presença desta mesma sombra parece espantá-la como se espanta uma nuvem de fumaça, como se de um abrir de janelas se tratasse... será que é assim, será que a luz se vai mesmo espalhar? E uma vez espalhada será essa a sua versão final? Pelo menos em termos de intensidade e de espalhamento; que pormenores eu depois trato. Não quero a cegueira. A cegueira que provoca a luz, não a quero. Ofuscada pelo brilho dos dias mornos e luminosos, não vejo o negrume fecundo das coisas que urge mudar. Cessa a evolução, vive-se um dia de cada vez sem se pensar no que já foi e no que está por vir. Quero discernir na luz o caminho que aqui me trouxe e o caminho que é suposto calcurrear. Com os devidos erros de cálculo de quem olha à distância, mas se posso saber, quero saber. Não apenas em termos de coisas, mas em termos da substância de que é feito o espírito. Que se não me apague o espírito com o acender da luz; que se não me apaguem as luzes de dentro com o acender das luzes de fora...

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