quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Lost again... always lost...



... desta vez perdida em campos já conhecidos. Com os estrondos dos canhões e das armas soando lá muito ao fundo, lá muito longe, como pano de fundo para os meus dias vividos em surdina, num silêncio que não pedi. Eu que sempre precisei do silêncio para respirar, agora não o quero, não agora. Porque é que tudo se calou. Porque é que eu não ouço nada e não consigo mexer-me. Para onde estou a ir exactamente. Mas desta vez tenho pistas. De outras vezes tinha pistas, mas eram as pistas erradas, agora sei que tenho as pistas certas. Das outras vezes agarrava-me às pistas erradas com unhas e dentes, com medo que elas não fossem as pistas certas. Quando as pistas são certas, nunca é assim, nunca nos agarramos com unhas e dentes, apenas com unhas. Acho que sei para onde estou a ir, mas não tenho a certeza. Há coisas que não encaixam, há coisas que não quero assim. Pensei que nunca mais me sentiria asfixiada, porque nunca mais me senti asfixiada, até me esqueci de como era, até me esqueci de que um dia foi assim que me senti, asfixiada. Não me sinto asfixiada, mas quase me senti, por um instante. Os piores dos medos gostam de voltar de vez em quando como fantasmas ondulantes e sussurrantes, para uma última despedida, para garantirem que não me esqueço que um dia foi a mim que me pertenceram, foi a mim que me assombraram. É bom saber e perceber que voltam e vão embora de novo; é bom tomar consciência de que já não querem ficar, então vêm e vão, vão depressa, ao fim de uns meses, ao fim de semanas, quem sabe, no futuro, de dias. Sinto vontade de empurrar novamente a minha vida. Durante algum tempo, ela parecia deslizar sozinha, era quase perfeita e não sendo ela perfeita, era a minha boa vontade e postura que era perfeita, éramos perfeitas uma para a outra, encaixávamos na perfeição. A curva era ascendente, tudo melhorava, tudo ia para melhor. Pensei que não houvesse mais curvas na estrada, mas havia, havia uma que estava escondida, uma da qual me senti aproximar com toda a velocidade, mas achei que não fazia mal. Sabia que ia ser difícil, que corria o risco de me despistar, mas sentia também que nada podia fazer, e nada fiz. Ainda tentei fazer, mas do que tentei, pouco ou nada consegui. Era inevitável a colisão, o despiste, o acidente. Acidentei-me, despistei-me, magoou, doeu. E agora a voz fala em tom firme e vívido, sem hesitações, sem ecos ou coisas afins. Estou perdida, mas não estou perdida, ou acho que não estou. É tudo tão absolutamente claro e, qo mesmo tempo, tudo tão absolutamente louco e improvável. Deveria ser provável para acontecer, foi isso que aprendi, que apenas as coisas prováveis aconteciam. Mas não foi assim, muita coisa improvável aconteceu. Queria que muitas coisas improváveis e interessantes continuassem a acontecer como até aqui, queria que a minha vida não morresse, que a minha vida me deixasse perceber o que quer de mim. Eu já percebi, mas é como quem lê a legislação; nunca sabe ao certo como é que aquilo funciona na prática. Estou à espera de mais informações e orientações...




terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não era mentira.



Era verdade disfarçada de mentira. E todas as mentiras são muito mais verdade do que parecem. Se não não vingavam como mentiras e logo ruiriam enquanto tal. Era verdade, afinal, embora apenas parte da verdade, por isso parecia mentira, mas não era. Era parte da verdade. Que já não me mentem, que já estou crescida, já a posso conhecer sem me assustar com a sua aparente cara feia. Não devemos ir pelas aparências, lá diz a sabedoria popular; não se deve julgar as almas pelas caras; a verdade traz em si a beleza também, ainda que tantas vezes, ao princípio, faça cara feia. Que no fim de tudo há Amor apenas, só o Amor se transforma em verdade, só a verdade se transforma em Amor. Não há que temer a verdade. Há apenas que compreendê-la; a dor vem apenas de não compreender a verdade, dói porque não há verdade, é porque ainda há mentira. Não preciso de mentira, só de verdade. Sei que não consigo abarcar toda a verdade, ou Deus seria eu, não quero ser Deus, é muita responsabilidade. É muito o crescimento para se lá chegar, cansamo-nos muito, divertimo-nos pouco. Não quero ser Deus, mas quero abarcar tanta verdade quanto possível. Quero que me digam, quero compreender. Quero que a alguma verdade que estiver ao meu alcance seja suficientemente coerente e completa para eu poder perceber. Como uma porção de um puzzle em que, não se percebendo todo o desenho, se percebe, pelo menos, aquela parte. Não quero a parte do puzzle em que a figura está cortada ao meio e nada se entende. É só isso. Ajuste-se a imagem, rodem-se os botões, desloque-se o cenário. Afinem-se as energias, optimize-se o processo. É um direito e um dever que tenho. No fim tudo encaixa e eu quero saber como encaixa. Quero reconhecer em mim o pedaço do Universo inteiro que eu sou. Quero saber como o todo cabe na parte.

Não era mentira, era apenas parte da verdade, era a verdade a descobrir-se, todos os dias um pouco. Falham as comunicações entre mim e o Universo, vêm as imagens aos solavancos, aos soluços, um pedaço da imagem a cada dia... e a cada dia a minha mente, sem autorização, especula sobre o resto que falta saber, e cada dia a minha mente descobre o quão falha é essa especulação. Que bom, que alívio, sente-se a leveza da ausência de responsabilidade, mas o peso da dor está sempre presente. Que as revelações têm um preço, que é a dor. Mas é uma dor que só dói por dentro, que faz mal à saúde de dentro, mas que eu aprendi a manejar. Aprendi a suavizar, a emoliar, a aplacar. A desinfectar as feridas provocadas pelos cacos dentro do peito. Que os sinto cá, os vidros, a espetarem-se nas paredes internas de mim. Mas ponho o creme e, no fim, juntando os cacos recriarei Gaudi numa Obra de Arte só minha, feita por mim. 

Era verdade e era bela, porque a verdade deve vir acompanhada da plenitude de sentir que tudo finalmente faz sentido, ainda que possa ser um sentido; mas há tantos sentidos. Há o perverso e todos os outros, que o perverso só se vê aqui à luz da Terra, todos os outros precisam de lanterna que nos guie na penumbra do subsolo.

Que se cumpra a verdade, já que é verdade. Que cada sentimento, agora que estão afinados, encontre o seu lugar na pintura do real, real daqueles que são materiais e se fixam na memória e nos fazem crescer e transformar em pessoas diferentes. 

Que se cumpra a verdade e que se revele ainda mais verdade do que se poderia pensar. Que me surpreenda na maneira de encaixar com perfeição cada um dos meus sentires numa realidade cheia de sentido e propósitos visíveis e perceptíveis. E assim, nenhuma armadura fará falta...

sábado, 31 de agosto de 2013

Verdade e Mentira



Perco-me com frequência, mas há momentos em que me perco mais do que em outros. Perdi-me agora mais que nunca. Vozes que me falam sem saber o que dizem e me enviam em direcções que não me pertencem... como querem que volte a confiar em vós, como querem que saiba se é a verdade que me dizem? Revolto-me e elas calam-se em retaliação. De que importa que estejam caladas; se falassem, que hipóteses teria eu de saber se o que dizem não passa de mais uma miragem? Miragens que não desejo, mas ainda assim aceito, por julgar verdadeiras, por julgar serem o melhor para todos. E ainda assim, não passam de miragens. Como queria ser digna da verdade. Conheço todos os seus perigos, sei que vista ao longe parece muito mais insuportável do que realmente é; adaptamo-nos a tanta coisa que inicialmente consideraríamos insuportável. Talvez me queiram poupar; as vozes talvez me tentem poupar apenas de dores desnecessárias. Mas acho que não.

Tanto mudou. Tudo está tão diferente. Diferente por dentro, que é onde vivem as grandes diferenças, as que quando se manifestam por fora têm já raízes. Por dentro sei que não continuará a ser assim. Gritamos que queremos a verdade, mas não estamos prontos para a ouvir. Não adianta gritar, então; sem o espírito preparado, seremos alvo de mentiras de toda a sorte. Estou cada vez mais pronta para ouvir a verdade, no entanto. Tanto, que é a verdade que ouço, foi a verdade que ouvi por tanto tempo, que me desabituei do resto. Questiono-me qual será a razão de um longo período de verdades desembocar sempre numa sucessão de mentiras. Sei que as mentiras, afinal, não são assim coisas tão graves, que por vezes nos levam por caminhos mais interessantes e ricos do que nos levaria a verdade. Enganos são mentiras da mente que nos quer levar a trilhar o caminho mais longo, pois a alma conhece que o caminho mais longo nos deixa mais fortes. Sabendo a verdade, teria ido direita ao ponto de chegada, sem me perder e descobrir reentrâncias na linha de sucessão das coisas. Que a vida não está para minimalismos, a vida é uma peça de crochet intrincado, de bilros. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

E Depois da Guerra



Depois da guerra, descansa o guerreiro. Será mesmo assim? Que vida a minha e que sina a minha, que quando parece que vem descanso, não é descanso que se vislumbra na verdade, mas sim a oportunidade de mais uma batalha, ainda que, por vezes, por algo com que não ousaria sonhar. E então certamente vale a pena lutar, que o Universo conhece-me, não nego uma luta por bons motivos. Por vezes, no entanto, resta a dúvida de que armas escolher. A arma do amor tem de estar sempre presente, mas é tão difícil distingui-la no meio de tudo o resto... como se se transmutasse no seu oposto a cada instante e eu tivesse de estar constantemente a procurá-la e a questionar-me onde anda ela, a arma que é o amor. Que o amor assume aspectos tão distintos que parece ódio, por vezes. Fingir odiar quando é amar que se pretende - será a arma eficaz? Na verdade, sou pouco experiente nisto de lutar com as novas armas que encontrei perdidas no caminho, há anos atrás... como se sempre lá tivessem estado, como se eu sempre as tivesse podido utilizar, mas andasse tão distraída que não reparasse na sua existência. Não sei se é eficaz, nem essa nem nenhuma outra das armas, menos importantes certamente, nesta luta que é a de viver intensamente, aproveitando cada momento, mas também cada oportunidade, cada sinal. Irei eu vencer mais esta batalha? Que me vêm à mente tantas e tantas vezes as imagens das batalhas que perdi, acompanhadas da voz que diz que não perdi, apenas ainda não percebi como ganhei; que neste mundo nada se perde. Poderia alegar cansaço, mas não. As possibilidades de um novo caminho que parece abrir-se fazem-me revigorar as forças e redobrar a vontade de lutar... apenas me sinto perdida sem saber ao certo como lá chegar... vi por momentos anteriores como se luta e se chega onde se quer chegar através dessa mesma luta; uma luta que poderá jamais ferir alguém, uma luta por ensinar, por evoluir e melhorar, uma luta por quebrar as amarras dos bloqueios, dos medos; uma luta pela liberdade de não se ser assim tão livre, mas não sê-lo da forma que se escolheu. E agora; é este caminho mesmo caminho, ou apenas mera ilusão, miragem absoluta como tantas vezes sucedeu, em momentos de inversão de pensamentos? Seria mesmo a miragem de se estar a mudar de prisma de olhar? Ou será este mundo um eterno engano e tudo o que possamos considerar verdadeiro estar condenado a revelar-se uma fraude? No limite, não tenho dúvidas disso, mas apenas luto por viver uma ilusão durante algum tempo... chega para mim, essa ilusão provocada pela ilusão que é o tempo, que sei que à verdade pura apenas se chega de ilusão em ilusão... Terei eu forças já e armas já para conquistar o que me foi dado a vislumbrar? Merecerei eu conseguir lá chegar, ou, pelo menos, poderei eu fazer por merecer, estará realmente ao meu alcance? ... É no momento em que teço estas questões que o cansaço me atinge... mas sei que o descanso não me é permitido, sei que a escolha não me é dada e que terei de continuar a caminhar em frente, de armas suaves em punho e esperar que me guiem as vozes da sabedoria dada pelo que já senti dentro de mim... pelo que já ouvi dentro de mim... esperando que as vozes que soam mencionem o presente e o futuro próximo, e não se refiram apenas a um futuro tão longínquo que ainda não consigo vislumbrar...