sábado, 31 de agosto de 2013

Verdade e Mentira



Perco-me com frequência, mas há momentos em que me perco mais do que em outros. Perdi-me agora mais que nunca. Vozes que me falam sem saber o que dizem e me enviam em direcções que não me pertencem... como querem que volte a confiar em vós, como querem que saiba se é a verdade que me dizem? Revolto-me e elas calam-se em retaliação. De que importa que estejam caladas; se falassem, que hipóteses teria eu de saber se o que dizem não passa de mais uma miragem? Miragens que não desejo, mas ainda assim aceito, por julgar verdadeiras, por julgar serem o melhor para todos. E ainda assim, não passam de miragens. Como queria ser digna da verdade. Conheço todos os seus perigos, sei que vista ao longe parece muito mais insuportável do que realmente é; adaptamo-nos a tanta coisa que inicialmente consideraríamos insuportável. Talvez me queiram poupar; as vozes talvez me tentem poupar apenas de dores desnecessárias. Mas acho que não.

Tanto mudou. Tudo está tão diferente. Diferente por dentro, que é onde vivem as grandes diferenças, as que quando se manifestam por fora têm já raízes. Por dentro sei que não continuará a ser assim. Gritamos que queremos a verdade, mas não estamos prontos para a ouvir. Não adianta gritar, então; sem o espírito preparado, seremos alvo de mentiras de toda a sorte. Estou cada vez mais pronta para ouvir a verdade, no entanto. Tanto, que é a verdade que ouço, foi a verdade que ouvi por tanto tempo, que me desabituei do resto. Questiono-me qual será a razão de um longo período de verdades desembocar sempre numa sucessão de mentiras. Sei que as mentiras, afinal, não são assim coisas tão graves, que por vezes nos levam por caminhos mais interessantes e ricos do que nos levaria a verdade. Enganos são mentiras da mente que nos quer levar a trilhar o caminho mais longo, pois a alma conhece que o caminho mais longo nos deixa mais fortes. Sabendo a verdade, teria ido direita ao ponto de chegada, sem me perder e descobrir reentrâncias na linha de sucessão das coisas. Que a vida não está para minimalismos, a vida é uma peça de crochet intrincado, de bilros.