terça-feira, 10 de setembro de 2013

Não era mentira.



Era verdade disfarçada de mentira. E todas as mentiras são muito mais verdade do que parecem. Se não não vingavam como mentiras e logo ruiriam enquanto tal. Era verdade, afinal, embora apenas parte da verdade, por isso parecia mentira, mas não era. Era parte da verdade. Que já não me mentem, que já estou crescida, já a posso conhecer sem me assustar com a sua aparente cara feia. Não devemos ir pelas aparências, lá diz a sabedoria popular; não se deve julgar as almas pelas caras; a verdade traz em si a beleza também, ainda que tantas vezes, ao princípio, faça cara feia. Que no fim de tudo há Amor apenas, só o Amor se transforma em verdade, só a verdade se transforma em Amor. Não há que temer a verdade. Há apenas que compreendê-la; a dor vem apenas de não compreender a verdade, dói porque não há verdade, é porque ainda há mentira. Não preciso de mentira, só de verdade. Sei que não consigo abarcar toda a verdade, ou Deus seria eu, não quero ser Deus, é muita responsabilidade. É muito o crescimento para se lá chegar, cansamo-nos muito, divertimo-nos pouco. Não quero ser Deus, mas quero abarcar tanta verdade quanto possível. Quero que me digam, quero compreender. Quero que a alguma verdade que estiver ao meu alcance seja suficientemente coerente e completa para eu poder perceber. Como uma porção de um puzzle em que, não se percebendo todo o desenho, se percebe, pelo menos, aquela parte. Não quero a parte do puzzle em que a figura está cortada ao meio e nada se entende. É só isso. Ajuste-se a imagem, rodem-se os botões, desloque-se o cenário. Afinem-se as energias, optimize-se o processo. É um direito e um dever que tenho. No fim tudo encaixa e eu quero saber como encaixa. Quero reconhecer em mim o pedaço do Universo inteiro que eu sou. Quero saber como o todo cabe na parte.

Não era mentira, era apenas parte da verdade, era a verdade a descobrir-se, todos os dias um pouco. Falham as comunicações entre mim e o Universo, vêm as imagens aos solavancos, aos soluços, um pedaço da imagem a cada dia... e a cada dia a minha mente, sem autorização, especula sobre o resto que falta saber, e cada dia a minha mente descobre o quão falha é essa especulação. Que bom, que alívio, sente-se a leveza da ausência de responsabilidade, mas o peso da dor está sempre presente. Que as revelações têm um preço, que é a dor. Mas é uma dor que só dói por dentro, que faz mal à saúde de dentro, mas que eu aprendi a manejar. Aprendi a suavizar, a emoliar, a aplacar. A desinfectar as feridas provocadas pelos cacos dentro do peito. Que os sinto cá, os vidros, a espetarem-se nas paredes internas de mim. Mas ponho o creme e, no fim, juntando os cacos recriarei Gaudi numa Obra de Arte só minha, feita por mim. 

Era verdade e era bela, porque a verdade deve vir acompanhada da plenitude de sentir que tudo finalmente faz sentido, ainda que possa ser um sentido; mas há tantos sentidos. Há o perverso e todos os outros, que o perverso só se vê aqui à luz da Terra, todos os outros precisam de lanterna que nos guie na penumbra do subsolo.

Que se cumpra a verdade, já que é verdade. Que cada sentimento, agora que estão afinados, encontre o seu lugar na pintura do real, real daqueles que são materiais e se fixam na memória e nos fazem crescer e transformar em pessoas diferentes. 

Que se cumpra a verdade e que se revele ainda mais verdade do que se poderia pensar. Que me surpreenda na maneira de encaixar com perfeição cada um dos meus sentires numa realidade cheia de sentido e propósitos visíveis e perceptíveis. E assim, nenhuma armadura fará falta...

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