quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Eu sabia... Sempre soube.


.... Que os fantasmas eram feitos de claras de ovos e açúcar. Que eram farófias que se se soprasse, se desfariam em mil pedaços de espuma polvilhada de canela e açúcar. Mas, de longe, pareciam fantasmas de verdade. Magoavam-me, doíam-me de verdade. O seu vislumbre enlouquecia-me. Estavam tão perto que me cheirava ao enxofre dos infernos. Sentia-me resvalar. Para lá, para o inferno. Sentia as chamas chamuscarem-me e começarem a enrodilhar-me a pele. Ficava nervosa, muito nervosa e com muito medo. Será desta que vai tudo por água a baixo? Se for assim, como vai ficar a minha vida, o que me vai acontecer? Será que tenho forças para suportar? 



Senti-me tantas vezes no limite das forças. Senti tantas vezes que não aguentava e que queria fugir, sem ter para onde e com medo de fazer aquilo que não queria fazer, mas que sei que não vou fazer, mas que tenho medo de fazer porque não quero fazer. Eu não quero ir ao meu limite nunca mais. Sei que só terei de fazer se passar do limite e do limite não passarei jamais.  Garantem-mo. Mas tenho medo, que já me garantiram outras coisas que não cumpriram. Nunca coisas importantes. A verdade é que está tudo diferente. As energias, a forma como fluem dentro de mim, como fazem o que têm a fazer. É diferente. Falam mais comigo, são mais suaves, já não fazem certas coisas. Só me assustam e agora assustam-me como nunca me assustaram, porque eu agora deixo. Porque eu agora já não confio. Antigamente assustava-me, mas ainda confiava. Agora já não confio e assusto-me muito mais. Espero tudo, vejo a minha vida desmoronar em frente aos meus olhos, ainda que em sonhos. 



E mesmo quando confio que a desgraça não é desgraça e que eu posso perfeitamente revertê-la e que ela se pode perfeitamente reverter a ela mesma ou, simplesmente, quando sei que ela simplesmente não é aquilo que parece, sinto que não aguento só o facto de ela ali estar. A desgraça, tendo-me batido à porta, a conviver comigo, sentada à minha mesa, deitada na cama, comigo para todo o lado. Calculo que não seja a verdadeira desgraça, mas cheira a ela, parece-se com ela, mete-me nervos, desgasta-me, cansa-me. 



Ela às vezes vem. Desgraça-me mesmo, mas de coisas que posso recuperar, de coisas não essenciais, de coisas que posso consertar. Coisas chatas, desgastantes, que me enlouquecem quando vêm todas juntas. Como as visitas não desejadas. Mas quando tudo passa, é como se o fumo se desvanecesse na atmosfera, deixando-nos a perguntar-nos se alguma vez houve fumo. Se bem que hoje já não. Os fantasmas e os infernos e os fumos, mesmo quando são só para assustar, deixa-me marcas. Fazem-me cabelos brancos, deixam-me olheiras e papos nos olhos, deixam-me amarga e desconfiada. Mesmo quando percebo que afinal não era nada. É que era. Foi, naquele momento foi e ficaram as cicatrizes. Vivi aquilo e ainda que se tenha curado, nada poderá mudar o facto de eu ter estado em tal posição ou situação. 


Não quero mais desgraças. Quero coisas, muitas coisas, mais do que as que tenho, mas que venham devagar, sem desgraças. E as desgraças que se estabeleceram suavemente, destruindo as forças de que necessito para o quotidiano, essas sim que se desvaneçam depressa, pois já têm condições para o fazer.